Crônica Romântica


Nesse último fim de semana terminei de ler o livro "A arte de reviver", que é um livro de crônicas do escritor, Manoel Carlos. Maneco, autor de novelas como, "Laços de Família", "Mulheres Apaixonadas" e também da "Viver a vida", que estreia ainda este mês. E uma dessas crônicas me chamou muita atenção, ou melhor, tocou-me intensamente. Intitulada "Morrer de Amor", o escritor utiliza como personagem da mesma uma das atrizes que mais sou fã, Deborah Secco. Transcrevo abaixo a tal crônica, para conhecimento de todos. E qualquer semelhança com minha vida, não é mera coincidência.

Quem, neste insensato mundo, já não ouviu a expressão morrer de amor? Ou ainda mais completa e dramática: morro de amor por você ou morro de amor por fulano? E, entre essas pessoas que assim se expressam quantas efetivamente morrem? Muito provavelmente, nenhuma. Afinal, não é fácil morrer de amor. Da minha querida amiga Deborah Secco, por exemplo, eu já ouvi:
– Morro de amor pelo Papinha. Quero dizer: pelo Maurício Mattar. Não, não, desculpe, me enganei: pelo Dado Dolabella. Minto. Pelo Marcelo Farias. Definitivamente, agora é sério: pelo Falcão!
Isso não significa que ela seja volúvel, como podem pensar os mais apressados, mas tão-somente que ela tem um grande coração, aliado a uma férrea vontade de encontrar o grande, o definitivo amor, por quem será capaz de morrer, verdadeiramente. Enquanto isso não acontece (e longe de nós o desejo de que isso venha a acontecer), ela vai namorando, namorando, namorando e afirmando, a cada um dos namorados e ao público em geral, ser eterno seu último amor. Haja tatuagem! Meus prováveis leitores se lembrarão do verso "eterno enquanto dure". E também da afirmação categórica de Shakespeare: "Inconstância, seu nome é mulher". Deborah, que até levou sua fama de namoradeira ao Fantástico e ao Faustão, não está nem aí. Quer mesmo que todo mundo se lixe, que ninguém tem nada a ver com a vida que leva e com o cacho de namorados que carrega em sua biografia de moça com pouco mais de 20 anos. E, apesar de tão jovem, já está quase merecendo um livro, um filme ou no mínimo uma minissérie, com sua vidinha sentimental trepidante e pública. Parodiando o poeta, "namorar é preciso, viver não é preciso". Deborah tem bagagem não apenas de namorados, mas de trabalhos realizados com um raro talento, talvez o maior entre todas as atrizes da geração a que pertence. E é isso que vale.
Mas o que será efetivamente morrer de amor? Morre-se mesmo? Alguém será capaz dessa proeza? Vejam bem: não me refiro a matar-se por amor. Não. Muitos já realizaram essa tresloucada aventura. Refiro-me a morrer naturalmente ou – se preferirem – a morrer de morte natural. Por amor. Gonçalves Dias, nosso poeta maior, escreveu estes lindos versos: "Sentir, sem que se veja, a quem se adora. Compreender, sem lhe ouvir, seus pensamentos. Segui-la, sem poder fitar seus olhos. Amá-la, sem ousar dizer que amamos. E, temendo roçar os seus vestidos. Arder por afogá-la em mil abraços: Isso é amor, e desse amor se morre!".
Bem, é um amor só possível até o século XIX. Hoje em dia, como amar sem tocar, sem virar o outro do avesso e sair por aí, proclamando aos quatro ventos que se está apaixonado e que se vai morrer de amor? Uma Deborah, na época de Gonçalves Dias, seria impensável!
Mas talvez os prováveis leitores não saibam que em nossa literatura tivemos um caso de morte por amor. Uma mulher: Francisca Júlia da Silva Münster, autora de muitos livros de poemas parnasianos, a quem Olavo Bilac dedicava os maiores elogios. Casada e louca de paixão pelo marido, abandonou a poesia para dedicar-se exclusivamente ao lar. Uma demonstração de amor equivalente, nos dias de hoje, à tatuagem da Deborah. Vai que um dia o amado esposo, cujo nome era Filadelfo Edmundo Münster, contrai tuberculose e vem a falecer. Inconformada, sentindo-se perdida e com os sonhos perdidos, Francisca Júlia abraçou-se ao cadáver, no caixão, pouco antes do enterro. Foi afastada dali, por parentes e amigos, que a levaram para o quarto do casal. E lá, na ampla cama, como em cima de um palco, entre os dois travesseiros com a fronha de linho trescalando alfazema, Francisca Júlia fechou os olhos para sempre. Sem um gesto, um gemido, um suspiro, nada. Quando foram chamá-la, encontraram-na morta, um sorriso tranqüilo nos lábios. Retardou-se o enterro de Filadelfo, à espera da esposa. Saíram juntos depois, cada um em seu caixão de cedro, rumo ao mesmo túmulo, no Cemitério do Araçá, em São Paulo, onde repousam até hoje e onde se pode ver uma imponente estátua da que morreu de amor, assinada por Victor Brecheret. Era um dia claro, bonito, de céu muito azul. Era 10 de novembro de 1920. Francisca Júlia tinha 49 anos.
Isso é amor. E desse amor se morre.
(12/05/2004)

Comentários

thaina disse…
Lindo texto, apesar de ter o pensamento de que não se deve morrer de amor e sim por amor, ou com o amor. Melhor, devemos viver o amor, ele não foi feito para a morte, isso é amor de literatura. O amor real, esse que sentimos, deve ser vivido, doendo ou sorrindo, o amor é vida!

Adoro você e obirgada por mais esse lindo texto!

Beijoks ♥
Anônimo disse…
Só passei aqui pq estou triste... Serei sincera. Não li nem o post. Tenho um monte de coisas pra fazer, cabeça cheia de problemas e medos. Mas aqui é um porto seguro e não adianta o que esteja escrito no post, pois o que busco não são as palavras e sim vc.

Obrigada por estar aí sempre.

Cada dia eu morro um pouco e ninguém percebe... E quando eu partir, dirão "Já foi?Tão cedo, tadinha...Ninguém esperava!"

Não se preocupe comigo. Estou bem na medida do possível. Estalos pra vc!

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